terça-feira, 9 de novembro de 2010

Pieces

Sinto-te a esgravatar a porta e a tentar olhar intensa e desnecessariamente para o interior. Quase sinto o teu respirar quente, húmido e ofegante.

Irracionalmente aproximo-me. Toco levemente, do interior, no mesmo bloco de madeira já gasta que nos separa. Espalmo agora a cara contra a porta tentando absorver o máximo de informação. Oiço folhas a balancearem com o vento e talvez pássaros chilreando ao longe. Mordo o lábio e sinto o sangue a correr. tremo e tu reages.
O tilintar da campainha rasga esta ténue comunicação ligando-me brutalmente à realidade. Ajeito, a medo, a voz e num ar mecanicamente jovial pergunto: Quem és tu? O tempo limita-se a ficar suspenso no ar. Impaciente por esperas e cordialidades, abro a porta e sou encandeado por um tiro de luz. A pouco e pouco vai-se pintando uma pequena imagem à minha frente. Primeiro uns olhos grandes e reluzentes mais próximos de mim que o que esperava. Segue-se um sorriso gigante de orelha a orelha e por fim uns finos cabelos dançando vagarosamente.

Respondes timidamente: Não sei! E limito-me a devolver-te o sorriso

Suspenso

Porque é que a felicidade é estupidamente standartizada? Porque é que tudo começa por amor, pulos em câmara lenta em searas de perder de vista e termina em montes relvados com fontes colossais, pomares ainda maiores, sol, nuvens, juventude, virgens, deuses e afins?

Porque é que não nos é permitido ter ruído, confusão, luzes ténues e fraqueza no nosso ideal? Porquê tanto receio com o abismo se é ele o que mais nos permite descobrir? Descobrir, do nada, por nós próprios, o que quizermos. sem regras ou imposições. Alimentados apenas a adrenalina e receio. Somente ar e breu por desvendar. Onde o vazio é todo nosso e as culpas de ninguém...

sábado, 19 de junho de 2010

Breathless

vimemos marcados pelo sufoco. o sufoco criado por tudo, por obrigações, afazeres, rotinas, completamente viciados no stress diário, cegos e manipulados por necessidades impostas pela redoma da vida. Sem tempo para aproveitar, sem tempo para viver, sem tempo para respirar! Ainda assim, vão subsistindo aqueles pequenos momentos, por vezes raros, que fazem valer a pena todo o resto. Por curtos e escaços que sejam ainda resistem e fazem acreditar que afinal todo este mundo estranho faz sentido, que afinal existe algo pelo qual vale a pena!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Estigmatiza-se muito o sentimento transformando muitas vezes as relações em rotinas. Não gosto de estigmas!

terça-feira, 9 de março de 2010

...

Hoje quero ser dferente, quero ser genuino e nao conseguir ter uma cortina de nevoa a encobrir muito de mim, quero sair seguindo o ritmo de um bongo, entregar-me a nem sei bem o que, sem medos nem receios. Quero ter a mesma sinceridade e felicidade estampadas no rosto pintado com raios de sol como muitos...

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Procissão

Acordei com uma voz alta e mecânica de altifalante acompanhada por ruídos de multidão. Abri os olhos e pela janela do quarto uma santa passava rodeada de flores e brindes religiosos. Levantei-me e ali estava, perante a minha indiferente janela de quarto, a vila inteira, uma concentração de gente assustadoramente enorme. Uma fila interminável de acólitos, padre, banda, beatas, filhos, netos, maridos, vizinhos, ou apenas transeuntes desfilando vagarosamente em toiletes escolhidas a dedo, murmurando rezas que meia dúzia de papelinhos lhes ditava. Ao longe os sinos tocavam com um fulgor raramente visto, foguetes explodiam no céu e o cheiro a cera de velas invadia o ar. A procissão em honra à santa da terra tinha começado. O dia pelo qual todos tinham esperado durante o ano inteiro tinha chegado. À frente as velhotas em delírio cantando e rezando em uníssono enquanto vão avaliando quem está presente, o que levam vestido, se transportam velinha, pano, terço, andor ou qualquer outra bugiganga. Ao meio o padre rezando e apelando à devoção ao biblô gigante enterrado em flores e coberto de vestes que o seguia. Por fim, a banda tocando e os homens no final da corrente humana que se vão dispersando pelos cafés que aparecem...

Toco no vidro e sinto-me realmente afastado deste espetáculo. E sorrio...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

É triste

É triste que apenas com a ausência nos apercebamos do que outrora tivéramos. É triste que apenas com a ausência tenhamos coragem de valorizar aquilo que nos rodeia. É triste