sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Stuck

Acorda, e sente o corpo caído no suspenso. Uma gélida resistência de metal agarrando-lhe com afinco pés e pulsos fá-lo recordar a realidade. A realidade que o fechou num espaço hermético e artificial onde o único sinal de vida que resiste é a sua própria respiração. Ofegante, repentina e cada vez mais intensa alimentada a pânico. Apenas lhe resta tentar lutar. E luta. Luta entusiasticamente, tentando-se desprender com a vida destas algemas cruéis que lhe aprisionam o corpo. E a alma. Esforça-se cada vez mais. As veias dilatam até rebentarem a pele, e escorrem-lhe pingas de suor realçando-as, gradualmente, ainda mais. O cabelo acompanha-o, irónica e suavemente como se de uma dança se tratasse. O fulgor com que explodem bolsas de ar quente e húmido dos seus pulmões vão registando o desespero, compassando o tempo que tende em não passar. Luta com motivo e continua a lutar quando este se esgota. O ímpeto instintivo e animalesco de sobrevivência fornece-lhe forças outrora desconhecidas. Embora em vão. Tudo se mantém estático. Somente marcas de sobrevivência surgem rasgadas na carne. E ele desiste. Sem alternativa nem força.

Apenas entregue e abandonado àquela miserável condição...

Paranóia

Quero uma paranóia. Aquele estado criticado por muitos e adorado por tão poucos.
Quero! Viver a flutuar no limiar da loucura e aproveitar intensamente o que este estado me possa trazer. Baloiçar no desconhecido e devolver desdém às regras e imposições. Quero ser livre. Quero ser estranho. Quero abraçar o ridículo e esfregá-lo na cara do suposto correcto. Porque este não me dá nada e a insanidade dá-me tudo.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

(Per)corri até à exaustão, cada esquina, entrada e viela que surgiam e terminavam do nada. Num complexo labirinto, se é que o chega a ser, feito de uma crua e fria monotonia inquebrável. Ou melhor, julgava eu…

terça-feira, 23 de novembro de 2010

just...

não sei!
nem sequer sei se chegarei a saber.
ou tampouco sei se quero saber.
não sei!


vou-me contentando, com esta frágil ignorância, não sabendo nada, de forma a que quando souber, saiba que pelo menos era feliz enquanto ignorante!

domingo, 14 de novembro de 2010

Carrossel

Acompanhando uma caixa de música, imagino-me num carrossel. Em voltas incontáveis, para cima e para baixo, rodeado por crianças que nunca vi mas que, talvez pela inocência carimbada no rosto de cada uma, já vou conhecendo. Partilham o mesmo sorriso, o mesmo fascínio que a tenda gigante tecnolócica apetrechada de cavalinhos inspira em mim. E ali vamos nós, sentados, observando quem ali está, subindo e descendo num ritmo matematicamente calculado, abraçando a vida a cada segundo.

E a cada tilintar da música sou criança novamente...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Glass

Nada mais somos que um pedaço frio e transparente de vidro ao nascer. Que um fragmento onde não existe lugar para engodos nem ilusões. Puramente transparentes. Unicamente pequenos volumes sem impacto ocupando o seu quê de espaço. Encarando o mundo numa imaculada pureza incolor corrompida por uma grotesca, constante e injusta agressividade. Esculpidos por riscos e coleccionando sujidade, destruindo gradualmente a poética limpidez da nossa formação. Meramente condenados a uma frágil e ténue coesão transformável, em segundos, em estilhaços. Demasiados estilhaços, perdidos aqui e ali. Milimétricos, aguçados, cruéis e quase invisíveis estilhaços soltos ao acaso.

Estilhaços coláveis...peça a peça, a fita-cola tecendo uma nova superfície como se de um puzzle se tratasse. Uma nova abordagem, uma nova versão. Uma versão apenas nossa. Sem revivalismos genéticos. Uma forma com a sua própria plasticidade e dimensão. Com as aplicações que preferir-mos. Apenas conduzido a ímpetos de imaginação. Rechear tudo de cor e texturas. Criar pinturas ou formar esculturas. Sem imposições nem formalidades. Pura rendição à arte...

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Choque

Queria choques. Desesperava por descargas desmedidas de energia que acordassem o que há algum tempo morreu. Que ressuscitassem qualquer coisa. Não precisava de ser nada em concreto, somente alguns fragmentos que servissem de mote para o início de uma pesquisa pelos trilhos do passado. Redescobrir em tons dejá vu o que ficou suspenso em partículas soltas de memória. Não o tive. Queria, quase em súplica, mas não o tive.
Algures, não sei propriamente quando, entre cafés, fumo de cigarros e conversas triviais incentivadas por cérebros já petreficados pelo cansaço, vislumbrei por instantes o futuro... não o típico futuro idílico dos demais, mas um futuro à minha imagem. Pouco claro, pouco previsível, nada planeado, apenas um futuro. E embrenhado entre passados e futuros, entre o tentar restaurar o que foi e esbarrar com o que será, entre a definição de um percurso e a dimensão do desconhecido de outro, dei por mim desligado do presente. Aquele atroz e desumano presente. Que nos suga a alma e nos dá em forma de trocado, sufoco.
Curiosamente, não era por um baque seco e eléctrico que ansiava, mas exactamente pelo oposto. Tempo. Tempo para respirar, para pestanejar, para sentir vida a enrugar-se nas mãos e a cavar-se nos olhos. O já quase desconhecido tempo e a fossilizada Vida...